O "Eu" e "Você"

Há algo de nostálgico na vida, como se alguma coisa estivesse sempre faltando. O tempo vai passando, e o que fica é a lembrança daquilo que vivemos. A lembrança é, muitas vezes, recorrente, pois geralmente nos recordamos daqueles momentos mais impactantes.

O impacto, inevitavelmente, traz um sentimento aludindo a algo ou alguém. É uma marca que levamos conosco a longo prazo; é uma experiência que nos transforma de tal modo que, muito do que somos hoje, devemos a ela.

Se é mesmo verdade que muito do que somos é graças a essas experiências impactantes, qual é a parte faltante que constitui o nosso "eu"? Isso me faz retornar à primeira oração do texto: "há algo de nostálgico na vida, como se alguma coisa estivesse sempre faltando".

Nós temos a consciência de que, de fato, falta-nos alguma coisa. E essa falta, de certa maneira, provoca um estado de nostalgia, de um vazio impelido pela falta de sentido na vida. Pois, estamos tão acostumados a viver no impacto dos momentos e da incessante busca por mais, que nos esquecemos de que o "eu", essencialmente, é entendido por meio da revelação.

É na revelação que o verdadeiro sentido das coisas vem à tona. E a revelação é lenta, é todo um processo lento de entrega, que envolve o "eu" e "você". Deus disse a Moisés: "Eu sou uma coisa com aquele tipo de unidade que você descobre em si mesmo, quando está alerta e dirigindo-se a outro".

A revelação acontece, então, no âmbito das relações humanas. É na relação com o outro que podemos realmente nos conhecer, que podemos ascender espiritualmente. Nesse sentido, é correto afirmarmos que somos espelhos uns para os outros.

Afinal, é através do nosso próximo que conseguimos olhar para muitos aspectos dentro de nós. É na entrega sincera ao outro que o transcendente é revelado, que o transcendente se faz presente. Que o "eu" pode ser compreendido. E nós sabemos quando estamos vivenciando a plenitude, simplesmente porque nos faltam palavras para descrever o quanto o nosso coração está preenchido.

Nós, enquanto indivíduos sociais, somos sim muito das experiências que vivemos, e que nos ajudam a edificar nossa identidade pessoal. Na busca por novidades, queremos abraçar todas as oportunidades para ter mais e ser melhor. E, nessa falta de hesitação e suprema agitação, acumulamos ganhos e os atribuímos ao que nós somos, sem sabermos efetivamente quem nós somos.

Quando, porém, vivenciarmos genuinamente a relação "eu" e "você", aquele vazio que outrora sentíamos deixará de existir. Pois entenderemos que a falta de sentido que atribuíamos à vida era a ausência de entrega entre nós.


Imagem: sorria.com.br







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