Sobre a liberdade em excesso
Neste mundo hiper conectado, no qual fazemos e desfazemos contatos em um piscar de olhos, por meio de uma simples tecla, nós hemos de convir que as coisas estão muito fáceis.
É muito fácil deletarmos, esquecermos, em um mundo cada vez mais dessensibilizado pela abundância de estímulos que recebemos a todo o momento.
O que nós somos hoje podemos ser outra coisa amanhã. O que nós sentimos agora pode mudar nos próximos dias. A consideração que temos por alguém pode converter-se em raiva eterna. Se o ser humano sempre foi assim, esta coisa instável, oscilante e maleável? A resposta que eu daria a isso seria: o meio em que vivemos nos estimula a ser mais flexíveis do que nunca, a sermos mais abertos do que jamais fomos. E, sim, pela nossa própria natureza, somos oscilantes, frágeis. Mas é o excesso de liberdade que nos é ofertado diariamente que possibilita uma maior vulnerabilidade, inconstância e incerteza sobre quem nós somos e o que queremos.
Dito isso, vale reiterar para que não haja mal entendidos: não é a liberdade em si o problema, mas, antes, o excesso de liberdade a que somos expostos no dia-a-dia, como se conseguíssemos nos teletransportar de um lugar para o outro em qualquer momento em questão de segundos, a exemplo do que o personagem icônico Goku faz.
Queremos que tudo aconteça às pressas, no nosso tempo, no nosso ritmo; se não for assim, só precisamos virar a página e jogar no lixo aquele livro velho, que se tornou obsoleto na mesma hora em que um novo livro se fez presente. Presente - é só isso que importa mesmo. "Vamos viver tudo que há pra viver". E nós, enfadados do mesmo, queremos viver várias coisas diferentes simultaneamente. Sensações atrás de sensações.
Sensações atrás de sensações, é só dar um "play". Não precisamos nos sentir ameaçados por nada neste mundo, podemos ser homem ou mulher se quisermos, postar "nudes" é o sinal da mais elevada das liberdades humanas: o pudor é coisa do passado, não é mesmo? Não precisamos nos preocupar com o dia de amanhã, pois no fim tudo vira sensação. Vamos nos encontrando ao acaso, sem precisarmos nos preocupar em ter um passado ou um futuro. Poucos de nós estabelecemos ligações e conexões com os aprendizados que tivemos ao longo da vida: para mim, essa é a graça de estarmos aqui.
Mas, só para não perder o fio da meada, liberdade em excesso mata. Quem não há de convir, afinal, que estamos nos sentindo sufocados com tantas opções e estímulos? Nestes tempos despudorados e sombrios em que vivemos, somos encorajados a ser e a ter tudo, menos encorajados a buscar autoconsciência e força para fazer com que tudo aquilo que amamos seja perene em uma época em que tudo é perecível.
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| Imagem: Google |

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